Uma história de amor antiga que venceu o preconceito

Colonizador alemão se apaixonou por índia, no fim do século 19

Uma história de amor que venceu o preconceito
Adroaldo: memórias dos primeiros tempos

As comemorações alusivas aos 170 anos de imigração alemã em Santa Cruz do Sul já foram concluídas, mas as narrativas associadas àquele período não se esgotam. Contaremos hoje uma história de amor.

Um amor proibido, um amor incompreendido, que enfrentou preconceitos, que desafiou o destino.

Para situarmos o leitor, voltemos a 1849.

Em 19 de dezembro daquele ano, as primeiras famílias de imigrantes alemães chegaram à Alte Pikade, o que hoje é a Linha Santa Cruz.

Naquela época, dos seis imigrantes pioneiros registrados, apenas August Wuttke trouxe a sua esposa, Francisca Mummert, junto dos quatro filhos, Johann Wilhelm, Maria Johana, Lukas e Juliana Matilde. Moleiro, Wuttke veio da cidade alemã de Klopschen e, por amor à família, não abriu mão de trazê-los ao “novo mundo”.

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O grupo ocupou o lote quatro de Alte Pikade e August começou a buscar uma alma gêmea para o filho mais velho, Johann Wilhelm. Deu-se conta, porém, de que havia poucas opções de mulheres alemãs na redondeza.

Foi quando teve a ideia de levar o filho à Argentina, outro reduto da colonização na época, a fim de buscar uma moça de origem germânica para casar o primogênito.

O mau relacionamento de Johann com a madrasta Francisca foi o ingrediente que faltava para o pai rumar de navio com o filho.

Começava ali a história do clã Wuttke na região, cheia de percalços, contratempos, preconceito, mas, acima de tudo, de amor à família.

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Adroaldo Pedro Assmann

O descendente Adroaldo Pedro Assmann junto à sólida casa que Johann ergueu em Linha Santa Cruz após o retorno do Paraguai, ao lado da esposa Maria Gonzales

Quando o alemão se apaixona pela índia

Os caminhos tortuosos do navio que levava August e Johann à Argentina fizeram a dupla abortar o plano inicial e atracar no Paraguai.

O destino começava a dar as caras. “August então comprou uma gleba de terras para Johann se estabelecer em Assunção, e voltou à Alte Pikade.

Como ainda não havia estrutura para realizar a construção de uma casa, Johann foi morar temporariamente em uma pensão”, conta Lizete Maria Brum, 65 anos, integrante da quinta geração da família Wuttke.

A morada em questão era a Pousada Gonzales. Filha do dono do estabelecimento, uma morena de olhos puxados, bugra, de cabelos negros, lisos e longos, de nome Maria Anna Vilachi Gonzales, chamou a atenção do alemão.

“O pai levou ele para conhecer uma alemã, e ele acabou se apaixonando por uma índia. Os dois se amaram e logo tiveram um filho por lá, de nome Antonio”, revela Lizete, que se baseia em causos e contos de parentes, além da pesquisa familiar iniciada pela irmã Beatriz Ana Müller, em 2000, para atestar as informações.

O fruto do casal nasceu em 1873.

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Nesse período, o Paraguai enfrentava um turbulento pós-guerra.

Uma carta da época, anexada à pesquisa da família Wuttke, e que supostamente explicava como estaria a situação no local, foi endereçada aos pais de Johann.

A reportagem chegou a contatar especialistas na tradução de escritos antigos para decifrar as informações; no entanto, devido à caligrafia desenhada, não foi possível identificar o conteúdo (continuaremos tentando!).

“O Solano López, que era o comandante das Forças Armadas, começou a caçar os imigrantes que não falavam espanhol. Com medo de ser preso, Johann escapou com a mulher e o filho e apenas a roupa do corpo para o Brasil”, comenta Sirlei Regina Assmann Biasibetti, de 57 anos, irmã de Lizete e também integrante da quinta geração dos Wuttke.

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Ainda tiveram um outro filho em solo paraguaio, de nome Manoel, que acabou falecendo antes de virem ao Brasil.

Quando chegaram à Alte Pikade, precisaram enfrentar o desgosto do pai, que não aprovava a união. “Lembro de minha mãe dizendo que deveria ter sido difícil para o August aceitar a nora de origem indígena”, relata Lizete.

Para Paulo Trinks, entusiasta da cultura germânica na região, quando o amor quebra os paradigmas não existe preconceito racial que interpele uma relação.

“Se hoje existe preconceito entre raças, imagina no século 19, ainda mais que o August havia levado Johann ao Paraguai para casar ele com uma alemã.

O coração é meio louco, e o amor entre eles criou essa união inédita para a época, algo que quebrou preconceitos e causou muita repercussão”, comenta Trinks.

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Retrato antigo do August

August não aprovava a união entre o filho e a índia. Posteriormente, até brigou pela entrada do neto na escola

Lembranças do tempo da imigração

Lizete e Sirlei receberam a equipe da Gazeta do Sul na primeira casa do casal Johann Wilhelm e Maria Gonzales, quando ambos chegaram do Paraguai em Santa Cruz do Sul.

O local fica dentro do lote quatro, delimitado para a família durante a colonização.

A estrutura, que foi erguida quase em frente ao que hoje é a subprefeitura de Linha Santa Cruz, ainda permanece intacta, mesmo após mais de cem anos.

Posteriormente, Johann construiu uma nova casa, à frente da anterior, já de tijolos e areia.

Em outra incursão da Gazeta, Adroaldo Pedro Assmann apresentou o lugar à equipe de reportagem.

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A residência mais parece um santuário da imigração, com objetos e imagens antigas das mais diferentes épocas e que remetem ao período.

Um baú, em específico, conta com dezenas de livros, jornais, pergaminhos e registros trazidos da Alemanha pelo imigrante August.

O gosto pela leitura aparentemente era de família. O neto de August, Antonio, assinava o jornal carioca A União, além da revista Skt. Paulusblatt, entre outros periódicos.

Um documento que chama a atenção no baú é uma carta endereçada ao jornal A União, em que Antonio reclama da falta de entrega do jornal em sua casa, em Alte Pikade.

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Lizete e Sirlei

Lizete e Sirlei, da quinta geração dos Wuttke, mostram a primeira residência de Johann e Maria, quando eles vieram do Paraguai

Muita determinação para obter a plena aceitação na comunidade

Tão logo o casal chegou à Alte Pikade, foi matricular o filho Antonio na Deutsche Schule (Escola Alemã), única instituição de ensino da região na época.

Mais uma vez, o preconceito racial precisou ser enfrentado. “Eles queriam que Antonio aprendesse a ler e escrever, mas o professor da escola renegou o menino por ser filho de uma índia e a escola ser de brancos”, relata Lizete.

Ser neto de um dos imigrantes fundadores da localidade acabou sendo determinante para a inserção da criança no colégio.

“O August brigou, reivindicou o direito de o neto estudar, e conseguiu a vaga. Porém, com duas condições impostas pelo professor: sentar na última carteira e não falar com ninguém.” Antonio venceu o preconceito, a exemplo dos seus pais, e conseguiu estudar.

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A descendência indígena também pode ser observada nas lápides do casal Johann Wilhelm e Maria Gonzales, alocadas uma do lado da outra no Cemitério Católico de Linha Santa Cruz.

“São diferentes de todas as outras do cemitério. As pontas dos braços da cruz lembram as usadas pelos índios nas missões como símbolo do bem contra o mal”, cita Paulo Trinks.

O destino, entretanto, pregou mais uma peça à família Wuttke. De forma precoce, Johann Wilhelm morreu aos 66 anos, deixando Maria Gonzales viúva, e com cinco filhos para criar.

“Seguindo uma tradição dos antigos entre as famílias alemãs, quando uma mulher ficava viúva, o filho mais velho tornava-se o arrimo de família, ou seja, o chefe da casa”, explica Lizete.

Foi então que, para sustentar os irmãos mais novos e a mãe, Antonio foi aprender o ofício de carpinteiro em Deutsches Pikade (atual Linha João Alves).

“Foi assim que ele aprendeu a fazer carroças e arados e abriu uma carpintaria ao lado da casa deles, na frente da antiga Cooperativa de Linha Santa Cruz, onde hoje é a subprefeitura”, complementa Sirlei.

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Somente quando os outros irmãos chegaram à fase adulta, Antonio resolveu que era hora de achar a sua cara-metade e de se casar. “Já aos 40 anos, achou uma ‘coroa’ para a época”, afirma Lizete. A “coroa” em questão era Maria Gertrudes Hilbig, de 30 anos.

Segundo conta Adroaldo Pedro Assmann, de 69 anos, irmão de Lizete e Sirlei, o seu avô Antonio recebia cartas do governo paraguaio para reivindicar as terras adquiridas por August Wuttke para o pai dele, Johann Wilhelm, em Assunção.

“Lembro de minha mãe falar para o meu avô: ‘Fahr doch mal da riba!” (Vai para lá!), e de ele responder “Ach, du lieber Gott. Lass es liegen” (Ah, meu Deus do céu. Deixa isso para lá).

A história do casal Johann Wilhelm e Maria Gonzales, que venceu o preconceito, marcou a colonização na região, sobretudo por meio da miscigenação, que tornou Santa Cruz do Sul uma cidade cosmopolita. “Eles tiveram filhos e filhas, que deram origem a outras famílias, e que perduram até hoje”, finaliza Lizete.

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Maria Gonzales, sentada (de preto), com os filhos: em pé, da esq. para a dir., Antonio, Mathias, Guilherme e Ana Maria; sentada, Julia Maria. À época, o marido Johann já era falecido

Maria Gonzales, sentada (de preto), com os filhos: em pé, da esq. para a dir., Antonio, Mathias, Guilherme e Ana Maria; sentada, Julia Maria. À época, o marido Johann já era falecido

Em Carl & Ciss

A história de amor de Johann Wilhelm Wuttke e Maria Anna Vilachi Gonzales também é retratada no livro Carl & Ciss: Crônicas da Colônia Alemã – Homenagem aos 170 anos de imigração germânica em Santa Cruz do Sul (RS), escrito pelo jornalista Benno Bernardo Kist.

Além dessa crônica, a obra, lançada em 19 de dezembro, apresenta 25 textos que retratam como era a vivência na Santa Cruz “das antigas”, em comunidade e no âmbito religioso, afetivo, com as famílias, dentre outros aspectos sociais.

Carl & Ciss está à venda em livrarias e na Casa de Clientes Gazeta.

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Por Cristiano Silva. Do GAZ


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